Eleição nos EUA e o Efeito Bradley

21out08

A situação de Obama nas pesquisas parece confortável, embora menos que na última semana.

Nas pesquisas nacionais, está com vantagem de uns 5-9 pontos (a pesquisa da Zogbi que o UOL publicou era muito diferente das outras, e a mesma Zogbi já dá 8 pontos agora de novo). A ponderação de pesquisas do Pollster.com dá a ele 5,5 de vantagem

Mas isso são números nacionais, e, dado o sistema eleitoral americano, o que interessa são os votos no colégio eleitoral. Pelos cálculos do Pollster, nesse exato momento, se McCain levasse todos os Estados que estão fortemente do seu lado (137 delegados), todos os que tendem para seu lado (20 delegados), todos os que estão empatados (68 delegados), e um terço (22) dos que estão tendendo para o Obama (66 delegados), ele só empata (Obama tem 247 votos fortemente do seu lado).

No RCP, que já foi acusado plausivelmente de viés pós-republicano, uma metodologia diferente de contagem sugere que, mesmo se McCain levar todos os Estados indecisos, ainda perde.

E vejam a situação nos swing states, onde normalmente a coisa é equilibrada. Flórida, onde Bush levou a de 2000, e Ohio, onde ele levou a de 2004, estão equilibrados, mas mais para o Obama (McCain subiu na Flórida essa semana na pesquisa da Fox/Rasmussen). Os estados tradicionalmente democratas estão no bolso, e vários estados republicanos viraram swing: Dakota do NorteCarolina do Norte, por exemplo. Suprema humilhação, a Virgínia, terra do Olavo de Carvalho, está indo de Obama.

E não são só as pesquisas. Há uma onda de adesões dos Obamacons, conservadores que apóiam Obama, do Collin Powell ao filho do fundador da National Review, Chris Buckley, e Obama se sai surpreendentemente bem entre eleitores conservadores (22%). A crer nas fontes do Andrew Sullivan, McCain abandonou a campanha no Colorado (9 votos no Colégio Eleitoral), e pensa em fazer o mesmo no Novo México (5 votos).

Um jornalista que apóia o McCain confessou que se sente meio como o ministro da informação iraquiano, o fantástico Ali Cômico.

E é só a gente fazer as contas que se percebe que o negócio já acabou, certo? Errado.

Há um debate antigo na ciência política americana sobre o chamado Efeito Bradley: a tendência de candidatos negros receberem menos votos do que a pesquisa sugere. As explicações sugeridas se baseiam no medo de eleitores racistas se identificarem como tal para os pesquisadores, ou na tendência dos racistas radicais evitarem responder pesquisas.

Como era de se esperar, os cientistas políticos americanos estão considerando a eleição de 2008 como um laboratório perfeito para testar o efeito Bradley. Se alguém quiser ler mais sobre isso, recomendo:

1) Esse estudozinho da Pew, que sugere que o efeito pode ter existido, mas vem perdendo importância, e pode ter desaparecido.

2) Esse paper de um cara de Harvard, que identifica o efeito Bradley no começo dos anos 90, mas não em eleições recentes.

3) Essa série de posts no The Monkey Cage (esse, esse e esse) feita por um convidado, Adam Berinsky, que é especialista no negócio. Ele também acha que o efeito existiu, mas perdeu importância e não deve ser importante esse ano. E ainda chama atenção para um anti-efeito Bradley, em que candidatos negros vão melhor na eleição do que nas pesquisas em lugares com muitos negros.

A literatura, portanto, parece sugerir que o efeito Bradley, se existiu, não deve influenciar nada esse ano. Mas não se pode dizer isso com segurança.

Em primeiro lugar, o número de casos em que o caso poderia ter existido não é grande, visto que só outro dia os candidatos negros passaram a ter chance de ganhar. Isso faz com que qualquer análise retrospectiva deva ser tomada com cuidado.

Em segundo lugar, essas análises olham para médias. É, de fato, improvável que, no voto nacional, Obama tenha muito menos votos que na pesquisa por causa do efeito Bradley. Entretanto, dada a especificidade do sistema de colégio eleitoral, isso não é necessário para o efeito Bradley influenciar a eleição.

Se, em alguns swing states com grande população branca e pesquisas razoavelmente equilibradas, o efeito ocorrer, McCain leva esses delegados. Dependendo da intensidade do efeito, ele pode, sim, fazer diferença.

Se a diferença nas pesquisas for a atual,  o efeito Bradley, que tem sido estimado em torno de 3%, não deve influenciar quem ganha, mesmo levando em conta que, na eleição para presidente, os racistas podem se mobilizar mais. Mas, se McCain conseguir reduzir a diferença por outros meios em estados-chave, o voto racista escondido pode perfeitamente tirar a vitória de Obama, ou reduzir muito a margem de sua vitória.

Eu acho que não vai. Quem disser que sabe se isso vai acontecer ou não está de sacanagem. Mas é uma coisa a se observar.

PS: Um negócio irrelevante que eu achei engraçado. Vão lá no mapa do Pollster e cliquem no Alasca. Aparecerá um desses gráficos maravilhosos interativos deles, que eu, sei lá porque, não consigo inserir nos posts aqui. Procurem um pontinho que corresponda à pesquisa Fox/Rasmussen. O gráfico permite que você clique em cima do ponto e vejam o gráfico pontilhado só com resultados desse instituto (que é, disparado, o mais conhecido entre os disponíveis no mapa). A crer nesse negócio, se eu não estiver lendo errado (o que é bem possível), a diferença entre McCain e Obama no estado natal da Sarah Palin cai de 30 para 15 em um mês. Não quer dizer nada, mas eu achei engraçado.



One Response to “Eleição nos EUA e o Efeito Bradley”

  1. 1 Inês

    Sou portuguesa e ouvi falar do efeito bradley hoje, pela primeira vez, quando lia um jornal canadiano (do Quebéc), o Devoir. Como quis saber mais vim procurar na internet e o seu artigo ajudou-me bastante. Achei por isso que lhe devia agradecer. Agora vou aproveitar para dar uma vista de olhos no seu blogue! E que ganhe o Obama!


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