Greenspan e a crise

24out08

          

O André, que me ensinou muito do pouco que sei sobre economia na época em que tínhamos um puta trabalhinho corno e muito tempo livre para conversar, me manda uma reportagem do UOL em que o Greenspan admite que errou parcialmente na gestão da crise. Diz o Greenspan:

“Depois de ler um texto preparado previamente, Greenspan passou a ser diretamente inquirido pelos congressistas. O deputado democrata Henry Waxman, da Califórnia, que preside da comissão na qual se deu o depoimento, argumentou que Greenspan “tinha autoridade para interromper as práticas de empréstimos irresponsáveis que alimentaram o mercado de empréstimos imobiliários subprime [de baixa qualidade], mas “rejeitou os apelos para que interviesse”.
Conhecido como “oráculo” por muitos anos no mercado, Greenspan passou a manhã toda acuado. Waxman fez a pergunta que nunca ninguém tinha feito de forma tão explícita, e em público: “O sr. errou?”. Constrangido, o economista respondeu: “Parcialmente”.
Ao elaborar sobre o sistema de livre mercado, disse: “Eu encontrei uma falha”. Esse defeito, argumentou, foi ter acreditado durante quatro décadas que as próprias instituições que fazem empréstimos fosse capacitadas para proteger o interesse dos seus controladores. Ou seja, que um banco não vai começar a emprestar dinheiro de maneira irresponsável porque sabe que vai à falência.
“Aqueles de nós, eu inclusive, que esperávamos que o interesse próprio das instituições de empréstimo protegesse os acionistas estão em estado de descrença e choque”, afirmou.”

Como já disse aqui, tendo a concordar com a teoria da “tempestade perfeita”. Greenspan baixou demais os juros, o mercado financeiro espirocou (porque os reguladores deixaram). Os juros baixos alimentaram a insanidade financeira, mas a insanidade financeira, por sua vez, ameaçou o sistema financeiro, o que ameaçou causar uma recessão, e o que o FED tem para fazer nessas horas a não ser baixar os juros? Círculo vicioso, essas coisas.

Duas observações adicionais:

1) Uma é a do Fábio Pera, na mesma conversa. Como é que o Greenspan acredita que os diretores defenderiam sempre os direitos dos acionistas? Principal-Agent, neném (essa última frase é minha, não do Fábio, mas a idéia é dele).

2) Outra: como nota a Megan McArdle, tem gente na esquerdaça e na direitaça austríaca colocando a culpa toda no Greenspan, uns por que, se alguma coisa deu errado, só pode ser culpa dos republicanos; outros para dizer que, ora, se alguma coisa deu errado, só pode ser culpa de algum funcionário público, o mercado nunca erra. Crianças: há um mundo de dor lá fora.

PS: esse post é totalmente baseado nas conversas com esses caras, embora a responsabilidade da interpretação do que eles disseram e a conclusão seja minha. É como diria Bezerra da Silva: a razão do meu sucesso não sou eu nem minha versatilidade: é que eu gravo com uma pá de pagodeiros que são compositores de verdade (isso está claro também pela caixa de comentários aqui). Nenhum dos quais, naturalmente, é responsável pelas besteiras que eu falo.

PSTU: alguém aqui vai parar de ler o que o Greenspan escreve? Eu não. Tem que dar o desconto de que o cara tem lá suas posições políticas, mas isso tem que fazer com todo mundo.

(imagem tirada daqui)

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