Porque votar em Marta: Bilhete Único

24out08

                 

O pessoal lá do Blogueiros com Marta está pedindo textos de justificativa de voto. O sempre alerta Bruno já fez um bacana comparando as políticas de saúde da Marta e do Kassab. Eu vou falar do bilhete único.

O Bilhete Único foi a maior revolução urbanística da história do Brasil recente. Com ele, São Paulo cumpriu seu papel de, enquanto locomotiva econômica do país, modernizar nossa pauta de políticas públicas. Hoje, os dois candidatos a prefeito do Rio, por exemplo, defendem a adoção do BU.

Senão, vejamos. Em todo o mundo, o acesso ao transporte público é um dos principais determinantes das chances econômicas da população mais pobre (vejam esse texto do IPEA). Isto se dá por uma série de fatores:

1) O custo do transporte, por exemplo, é grande parte do custo de se procurar emprego (e milhares e milhares de brasileiros desistem de fazê-lo por não ter dinheiro para tanto, saindo, inclusive, das estatísticas de desemprego).

2) O fato de que a população mais pobre dificilmente morará perto do emprego impõe o mais regressivo dos impostos: gasta mais para chegar ao trabalho quem ganha menos quando chega. Isso não é só em valor relativo, em proporção ao que se ganha; muitas vezes, é em valor absoluto.

3) Em cidades em que a segregação habitacional por renda é alta, o transporte público mais caro é ainda mais perverso, porque torna os problemas causados pela segregação insuperável. Em pesquisas sobre os guetos americanos, verificou-se que o simples fato de um número muito grande de pobres estar isolado do resto da cidade, por si só, diminui as possibilidades de renda dessa população; isto porque grande parte dos empregos se consegue por indicação de alguém já empregado (e aí percebe-se o problema de se segregar altas porcentagens de desempregados na mesma vizinhança). A distância do emprego, como já vimos, é um fator que dificulta a busca do emprego pelos desempregados da periferia. E a isso tudo soma-se um terceiro fator, o preconceito de muitos empregadores contra os moradores da periferia, que nasce da precariedade do transporte público: é efetivamente pior contratar quem está mais sujeito a trens que atrasam, ônibus que quebram, ou, simplesmente, a falta de dinheiro para pagar duas ou três passagens para ir ao trabalho.

4) A dificuldade de acesso ao transporte é um importante fator de favelização, uma vez que muitos trabalhadores preferem morar em barracos perto do trabalho do que em casas propriamente construídas na periferia mais distante. Muitos dos guetos americanos, por exemplo, são frutos da construção de conjuntos habitacionais para abrigar (e condenar ao desemprego) a população que morava em cortiços e similares no centro das grandes cidades (onde tinham empregos; empregos ruins, mas empregos).

Vejamos agora o que dizem as pesquisas sobre os efeitos do bilhete único. Waisman et.al. (citado aqui, p.11-12) nos informa que 44% dos usuários do BU entrevistados por sua pesquisa economizaram até 20 reais por mês em suas despesas com transportes, e 17% economizaram entre 20 e 50 reais (lembrem-se, é provável que os mais pobres tenham economizado mais, proporcionalmente).

O estudo é de 2005. Se tomarmos o salário mínimo de 2005 (300 reais), isso quer dizer que Marta Suplicy deu um aumento salarial de até 7% para quase metade dos usuários do BU, e de até 17% para outros 17% dos usuários. 36% dos entrevistados usaram esse aumento para comprar comida.

Mas, na verdade, o benefício é muito maior.

Em primeiro lugar, pois para estas pessoas ficou mais fácil conseguir emprego. Supondo que alguma delas tenha conseguido (o que é plausível), o BU representou sua entrada no mercado de trabalho, uma pessoa a menos exposta ao risco de se tornar criminosa, uma pessoa a menos servindo de role model às crianças de sua vizinhança, que assim também passam a ter menos chances de se tornarem criminosas.

Em segundo lugar, pelos efeitos sobre a competitividade das empresas paulistanas. Em reportagem da Folha de São Paulo, (ver aqui, p. 10), empregadores revelam economias de até 30% no valor pago como Vale-Transporte desde a implementação do BU. É uma situação análoga à que se encontra nos EUA, em que o seguro-saúde é fornecido pelos empregadores, o que aumenta seus custos e torna as empresas norte-americanas menos competitivas.

Ou seja: de uma tacada só, Marta desconcentrou renda e aumentou a competitividade do empresariado paulistano. Se isso não for boa política pública, eu não sei o que é.

Bom, eu poderia agora comparar a política de transportes da Marta com a do Kassab. Mas pra que fazer isso? Eu moro aqui, mas nem sou paulistano (sou carioca, flamenguista e eleitor do Gabeira), nem sou especialista em transportes. Além disso, sempre votei no PT, posso estar sendo parcial. É melhor deixar para quem conhece comentar.

Com a palavra, Geraldo Alckmin:

“O drama de quem tem carro é grande, mas o sofrimento de quem anda de ônibus é muito maior. Justiça seja feita à ex-prefeita Marta que até obteve alguns avanços com corredores exclusivos e Bilhete Único. Eu, governador, junto com o prefeito Serra, ampliamos para o Metrô e o trem. O prefeito Kassab não investiu na ampliação do sistema. O transporte não foi prioridade em seu governo. “

Agora vai, Kassab: arranca um cartaz aí pra ver se a gente muda de assunto.



2 Responses to “Porque votar em Marta: Bilhete Único”

  1. Companheiro, gostaria de contar com seu apoio em divulgar o novíssimo vídeo: “SERRA E KASSAB, A MÁFIA PAULISTA”. Quem não vai gostar é os almofadinhas do “CANSEI” e os neuróticos jornalistas da Folha de São Paulo, Estadão, Veja, Rede Globo, SBT, Rede Record, RedeTV, Correio Brasiliense, O Globo, Jornal do Brasil e O Dia. O endereço do Yuotube:
    http://br.youtube.com/watch?v=tOQxrd5JiXc
    Um grande abraço, Daniel – editor do blog Desabafo País (Brasil):
    http://desabafopais.blogspot.com/
    Filiado aos BLOGUEIROS DA MARTA

  2. 2 Vicente

    Pois é, mas parece que o povinho paulistano não precisa de serviços públicos. Pra eles o grande prefeito é aquele que tira plaquinhas, arruma uma pracinha e aparece sorrindo. Vão eleger um novo Pitta, um capacho nas mãos de forças maiores. Daqui a quatro anos, aparece o PSDB dizendo que não tem nada com isso, pedindo votos e certamente vencendo mais uma eleição. Esse povo não aprende mesmo, merece esse prefeito.


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