Gabeira e o recado das evangélicas

29out08

Uma semana antes da eleição, escrevemos sobre nosso dia de campanha na Central do Brasil:

“Uma impressão altamente subjetiva: as moças com aparência de evangélica praticante (cabelo muito longo, vestido idem) não aceitavam o adesivo nunca. É possível que o apoio do Crivella esteja influenciando isso.”

Vejam agora os dados no Ex-Blog do CM de ontem (como é que eu coloco link para isso?):

“Os fatores básicos que explicam o resultado foram os votos de Crivella e o voto feminino, fatores que se cruzam.

2. Todos os cruzamentos em todas as pesquisas no segundo turno mostravam uma vantagem significativa de Paes entre os evangélicos (empate ou derrota por pouca diferença entre os católicos e derrota acentuada entre os demais). E uma vitória entre as mulheres com margem fora do empate técnico.

3. Os estudos realizados em base a pesquisas no Rio mostram que o perfil básico do eleitor/a evangélico neo-pentecostal é de uma mulher de renda mais baixa. Lembre-se que em mais de 50% das famílias com renda menor que 2 SM o chefe da família é uma mulher.

4. Crivella teve sempre no primeiro turno 40% dos votos dos evangélicos, que são no Rio 20% dos eleitores. Ou seja, 8%. E entre estes, a grande maioria é de mulheres. Os membros da IURD representam 5% do eleitorado do Rio, cuja condução de voto é direta nas eleições majoritárias (embora haja desvios nas eleições proporcionais em função de fatores pessoais ou locais).

5. Com isso, certamente Crivella conduziu o voto de quase 65% de seus eleitores neo-pentecostais. Nesses, a abstenção é muito menor, na medida em que cumprem a sua missão ao votar. Sendo assim Crivella conduziu o voto de pelo menos 150 mil eleitores, podendo ter chegado a 200 mil eleitores.

6. O voto evangélico, em geral, foi o fator permanente que explicou o patamar de intenção de voto de Paes no segundo turno. Sem isso seu patamar cairia pelo menos 5 pontos.

7. Mas uma vez definida essa preferência do eleitor evangélico, o fator decisivo foi, com garantia absoluta, a condução de voto para Paes do bispo-senador Crivella. A ele Paes deve a eleição.”

Uma boa parte do voto evangélico já estava perdida desde o começo, por causa das posições históricas do Gabeira sobre casamento gay e liberação das drogas. Agora, dói um pouco um candidato da esquerda moderna não conseguir o voto  de mulheres pobres. A esquerda precisa ter o que oferecer a elas.

E tem, porra! Uma das grandes bandeiras da social-democracia européia recente é o universal childcare, o direito universal à creche, que não deve ser só um depósito de cidadãos de fralda, mas uma parte do sistema educacional tão priorizada quanto as universidades públicas. Pesquisas mostram que boa parte do gap educacional inter-classes (que se reflete diretamente na desigualdade de renda) se forma na pré-escola. Se não fizermos uma boa pré-escola para os pobres, as boas universidades públicas permanecerão fechadas para eles.

Gabeira defendeu a expansão da rede de creches, mas pode ter faltado ênfase, e a impressão de que isso era importante pra cacete.

PS: outros bons artigos sobre o Gabeira no Renato (nosso candidato em Belém) e no Noblat.



5 Responses to “Gabeira e o recado das evangélicas”

  1. Estatística é fogo. Se X leva a Y, e o eleitor do Crivella, por ser evangélico, vai com certeza votar, o CM com certeza já sabia disso antes da eleição, o que significa que ao invés de ficar fazendo contas ele devia ter agido para melhorar a situação da sua candidata ou ao menos ajudar o Gabeira, a quem estava apoiando. Parece comentarista de futebol, que fala um monte de bobagens durante o jogo, mas depois aparece com argumentos do tipo “como queríamos demonstrar”. Mestre, eu concordo cada vez mais contigo, a esquerda moderna deveria ser capaz de atrair mulheres pobres, mas precisamos nos lembrar que existem mulheres pobres de direita também – seja por seus valores morais ou por suas crenças religiosas (e as duas coisas muitas vezes vêm juntas). Esse é um problema interessante, como atrair estas eleitoras pra um candidato como Gabeira? Talvez seja impossível, mas não seria o caso de o candidato fosse só um pouquinho mais convencional – tenho a impressão de que, no caso deste grupo de eleitores, acusações pessoais quanto à vida sexual de um candidato são quase tão eficientes quanto objeções morais mais razoáveis, tipo aborto e drogas. Enfim.

  2. 2 Felipe Basto

    Lideranças evangélicas tradicionais, como o Manoel Ferreira (lembra? ele foi candidato ao senado) e o grupo ligado a Bené, já estavam com o Paes e batalharam bastante no segundão. A ação deles não pode ser desprezada.
    O Amiano tem razão: existem mulheres pobres de direita também – seja por seus valores morais ou por suas crenças religiosas (e as duas coisas muitas vezes vêm juntas). E não são poucas. IMpossivel não é, mas muuuuiiito dificil.
    E as mães viram as escolas do estado distribuirem uniformes novos em outubro, reforçarem a merenda, inaugurarem salas de informática, contratar professores e abrir concurso, e outras coisas mais. Tudo acompanhado da promessa que a prefeitura também pode ser assim. O uso da máquina foi forte.

  3. Grandes!

    Bom, para fazer essa análise estatística de maneira mais apurada, seria necessário acesso aos dados brutos, o que nem o CM deve ter. Mas o Gabeira perdeu, durante toda a campanha, e em todos os institutos, entre as mulheres, e o Crivella foi, também no que se refere às pesquisas, o derrotado que melhor transferiu voto. O déficit entre as mulheres já era claro pelo menos desde o começo do segundo turno, e o apoio do Crivella ao Paes era mais que esperado.

    Não há dúvida de que há mulheres conservadoras cujo voto sempre será da direita, mas nos EUA, por exemplo, os democratas se saem melhor junto ao eleitorado feminino. As questões da esquerda em geral são o que os americanos chamam de “mommy´s issues”, políticas sociais, etc. Para ganhar, o Gabeira não precisava dos votos de todas as mulheres evangélicas, só precisava equilibrar o jogo. Calculem o quanto a mais dos votos da Zona Oeste ele precisaria ter tido para ganhar, e chorem: é pouquíssimo.

    Na verdade, isso foi só mais um sintoma da falta de sintonia com setores mais pobres. O que dificulta o contato da esquerda com a religião não é a crença dos religiosos em Deus. Isso é um pressuposto muito anterior a qualquer questão política. O problema é o conservadorismo moral que normalmente acompanha a fé religiosa intensa.E aí é que faz falta uma proposta pró-pobre.

    É fácil o pessoal da Zona Sul ser a favor da liberdade sexual, por exemplo; mas para uma mãe solteira que viu sua vida ser dramaticamente prejudicada por ter engravidado aos quinze, parece óbvio que a melhor escolha para sua filha é ser evangélica. Defender a legalização das drogas é outra coisa se você tem um filho com risco alto de cair no tráfico e morrer antes dos 25.

    Para boa parte da classe média, o que faz a molecada maneirar na cocaína ou tomar pílula é o quanto isso ameaçaria suas perspectivas profissionais. Se suas perspectivas profissionais são uma bosta, sua mãe vai ter que inventar alguma outra coisa.

    Foi a partir dessas coisas que o Reagan arrebatou os seus “Reagan Democrats”, eleitores com características tipicamente de esquerda que ficaram incomodados com as políticas culturais da esquerda 68.

    Não é que tenhamos que nos tornar moralistas Olavos de Carvalho (ou Olavo de Carvalhos? Ou Olavos de Carvalhos?). Mas é preciso ter políticas para as mães pobres, e isso não é coisa para deixar para a primeira-dama fazer com obras de caridade: tem que ser tão importante quanto a política econômica, a política de defesa (as famosas “daddy´s issues”).

    É claro que muita gente vai continuar sendo conservadora (e quem sou eu para dizer que eles estão errados?), e a religião permanecerá incólume não interessa o que façamos em nossas brigas políticas mesquinhas. Mas os progressistas precisam assegurar que os que assim quiserem permanecer o farão por predisposições filosóficas, não por imposição da pobreza.

  4. Acho que é isso mesmo. A campanha de Gabeira foi maravilhosa, mas errou na enfase. No penultimo programa ele quase so falou de cavalos de paqueta. PQ não dar mais enfase a um eleitorado que ele esta perdendo e tem propostas para ganhar? Esse tipo de informação que faltou a Gabeira.

    Que venha 2010. Gabeira Neles!

  5. É isso aí, Leo! Vamos torcer.

    Mas o pior é que eu adoro Paquetá.🙂


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